História de um Casamento - quando o amor vira rancor e o casamento uma disputa.

(Texto de Takwila - 03/Jan/2020). 

Uma conversa difícil, mas necessária, a respeito do processo de divórcio e sua contribuição direta nos traumas gerados pela separação.

Num primeiro olhar é quase automático encarar o filme de Noah Baumbach, História de um Casamento, como mais um filme genérico de amor e término insuflado de grandes nomes de Hollywood só para virar os pescoços do público e conseguir chamar atenção da mídia. Entretanto, logo torna-se possível perceber que o longa-metragem produzido pela Heyday Films e distribuído pela Netflix explora uma proposta muito mais séria e até mesmo ríspida de abordagem do banalizado tema do drama amoroso.

No filme protagonizado por Adam Driver e Scarlett Johansson, Charlie (Driver) e Nicole Barber (Johansson) formam um casal que para as pessoas ao redor não possui falhas. Charlie é um diretor de teatro respeitado e Nicole uma atriz de cinema que construiu uma carreira sólida no meio teatral. Os dois têm um filho de 8 anos e uma vida complementar tanto no profissional quanto no íntimo. No entanto, não é situação nada incomum que relacionamentos sejam bem diferentes por dentro se comparados ao que dá para enxergar deles no lado de fora. Charlie e Nicole estão se divorciando.

A narrativa do filme é algo que logo de cara chama a atenção. O roteiro descarta a estrutura comum aos filmes dramáticos que se organizam cronologicamente exibindo em sequência linear os acontecimentos que culminam no fatídico término da relação amorosa. Aqui a história começa com o divórcio já em curso, colocando em foco o processo de tortura emocional que é a separação matrimonial e como ele acaba tornando-se um grande agravante para as injúrias afetivas carregadas pelas pessoas envolvidas.

Desde o início é possível observar que a preocupação do filme é muito menos a de focar a sua narrativa em volta da questão de se Charlie e Nicole vão conseguir superar seus problemas ou não, mas muito mais a de centrar-se na dúvida de até onde eles conseguirão chegar com seu ciclo de destruição até que finalmente parem ou fatalmente nada mais reste que possa ser preservado, quiçá restaurado entre eles. A sensação que o filme passa desde o começo é a de um desastre inevitável, um voo na descendente com o motor desligado em que nada resta fazer além de ver até quando o piloto conseguirá lutar contra o inelutável.

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No meio de tudo isso temos Henry (Azhy Robertson), um garoto de apenas 8 anos cujos pais fazem de tudo para manter o mais alienado possível quanto à toda a situação, e Nora (Laura Dern) e Jay (Ray Liotta), advogados responsáveis por Nicole e Charlie, respectivamente, durante o processo de separação.

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Laura Dern e Ray Liotta não desapontam, compondo interpretações inspiradíssimas.

“Advogados criminais enxergam pessoas más na sua melhor forma, advogados conjugais enxergam pessoas boas da pior maneira”

O filme representa bem a aberração do casamento enquanto contrato, explorando a forma como o processo de divórcio contribui imensamente no agravamento de danos internos ao relacionamento, tornando-os ainda mais distantes de serem reparáveis e por vezes impossibilitando até mesmo de serem conciliáveis num mínimo básico de convívio.

Assim como é norma em qualquer processo judicial, é o mise-en-scène que é prioridade máxima. Em outras palavras, trata-se de um jogo de adornos e vandalismos entre duas partes na busca de representar seu lado como o lado mais digno e o outro lado como o mais indigno. Os próprios interesses da criança, caso haja, são inúteis, a não ser como arma argumentativa.

Essa relação adversarial é nada mais que um câncer da sociedade ocidental, sendo ainda mais evidente com relações conjugais, visto que o objetivo de todo relacionamento amoroso dá-se no extremo oposto de entender o outro enquanto adversário. Some a isso o horror de colocar no centro disso profissionais quase que unicamente comprometidos com a ética do convencimento, advogados dotados de olhares estéreis e objetificantes que utilizam inseguranças, imaturidades, equívocos e até mesmo ingenuidades como ferramentas para a sabotagem, e fica fácil sugar do resquício que há em qualquer laço afetivo qualquer coisa de humano.

O filme faz um ótimo trabalho em evidenciar a maneira como, conforme o processo de divórcio avança, a distância intensifica entre Charlie e Nicole. Duas pessoas que, segundo própria admissão, ainda amam uma a outra apesar desse amor ser insustentável.

Inclusive, a primorosa fotografia e a direção do longa fazem algo magnífico ao concretizarem essa separação para além do plano metafórico, em diversos momentos manifestando-a de forma viva no mundo físico onde o casal várias vezes pode ser visto distante um do outro.

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Quem viveu sabe como é estar na presença e sentir-se dois mundos afastado.

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Estar de frente e não sentir-se enxergado.

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Estar junto e mesmo assim isolado.

Em uma determinada cena que é exibida no trailer do filme, há também uma representação muito bonita, ainda que triste, envolvendo um portão eletrônico em que todo o momento ali serve como uma bela manifestação física do que seria somente perceptível no âmbito sentimental dos personagens.

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No meu próprio entendimento, qualquer relacionamento entre duas pessoas extremamente sensíveis tem chances muito maiores de acabar (caso acabe) em um grande desastre. Pessoas extremamente sensíveis são sensíveis também às fragilidades de outras pessoas, e, por conta disso, sabem com precisão cirúrgica onde atacar para obter o maior estrago. E quando é chegado esse ponto não costuma existir volta. Este filme carrega consigo a briga de casal mais bem escrita que já vi justamente por demonstrar bem isso. A frustração de um casal que claramente ama um ao outro mas cujo sentimento, por imenso que seja, não consegue ser capaz de prevenir contra os estragos do rancor e do descaso. E na calda disso tudo, a sensação que dá em nós é de que tudo, absolutamente tudo, poderia ser resolvido com algumas desculpas sinceras e a disposição de expressar com honestidade os entraves que assediam cada uma das partes envolvidas. Mas a maior das frustrações, que também é a nossa ao assistir ao filme, é a de que essas desculpas nunca chegam e essa honestidade só incorre na forma de gritos, municiada por lágrimas e ofensas graves demais.

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“Não é tão simples quanto apenas deixar de amar”

Eu coloco com convicção este filme na mesma prateleira que (500) Dias Com Ela e O Brilho de uma Mente Sem Lembranças. Filmes que tratam do término amoroso e suas diversas etapas com maturidade, ainda que com alguma dose de descontração, sem subestimar o seu público ou romantizar a dificuldade que é superar um relacionamento deveras significativo. Acrescente a isso o otimismo saudável em lembrar-nos da realidade verídica de que as coisas passam e/ou ficam mais fáceis de lidar, e você tem uma obra que pode não apenas entreter como talvez te ajudar a dar um passo à frente ou finalmente te fazer entender que é possível olhar adiante.

Isso sem deixar de lado as pertinentes questões que ele levanta em relação ao casamento, o divórcio e também nosso próprio papel enquanto responsáveis pelos nossos próprios sentimentos. É algo frequente pessoas entrarem em relacionamentos com inseguranças, fragilidades e pendências particulares e culparem a outra pessoa no relacionamento por piorá-las. Isso é imaturo e covarde. Um pensamento que, caso não seja assumido e domado, acarreta num comportamento compulsório que só pode afetar negativamente todos os relacionamentos a vir. Precisamos assumir todo e qualquer peso que nós mesmos carregamos conosco. Isso para protegermos não somente a nós, mas as pessoas com as quais nos comprometemos. Do contrário, nos tornamos mancos que culpam a própria muleta por não conseguirem andar direito. Enfermos que não tomam remédio, mas que ainda assim culpam a farmácia.


https://medium.com/revista-subjetiva/história-de-um-casamento-quando-o-amor-vira-rancor-e-o-casamento-uma-disputa-5c5fb82b795c

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