Por que eu desativei o meu Instagram com 5 anos, 764 posts e quase 4k seguidores

(Texto de Lari Maza - 04/Set/2017). 

Uma revolução minimalista que começou no guarda-roupas e continua a mudar minha visão sobre a vida. 

Tudo começou em 2015 quando comprei o livro A Mágica da Arrumação, da Marie Kondo, pra dar um jeito no meu guarda-roupas caótico. Só pra ilustrar, eu tinha 78 pares de sapato (esses detalhes são tema pra outro post!). O livro fininho, modesto, de menos de 20 reais, despertou cadeias de mudanças que continuam acontecendo dois anos depois.

O segredo do sucesso da Marie Kondo é que, quando você tem menos coisas, elas se mantêm organizadas sem esforço, porque tudo tem lugar. Então, o primeiro e mais importante passo é segurar cada um dos seus itens nas mãos e se perguntar: “Isso me desperta alegria?”. Se não, descarte.

Então, eu fiquei com apenas um terço de todos os meus pertences e não senti falta de nenhum desapego. Mas, ao longo de 2016, eu acabei voltando a comprar mais coisas e não usei várias das que decidi manter. Aí, entendi que existe uma relação direta entre o uso que você faz das suas coisas e o quanto você compra sem necessidade. Quanto mais você aproveita tudo o que tem, mais você percebe que já tem tudo de que precisa.

Parei, respirei, refiz o processo Marie Kondo de forma ainda mais radical e expurguei novamente os pertences pra menos da metade. Mas eu ainda não estava confiante com a permanência dessa redução. Foi aí que assisti o maravilhoso “Minimalism: Um documentário sobre as coisas importantes” no Netflix. É curto e inexplicavelmente intenso. O filme segue os amigos Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus enquanto espalham a mensagem do seu blog/podcast, The Minimalists. Minha tradução livre de um trecho do blog:

"As pessoas podem pensar que a idéia do minimalismo é apenas se livrar de posses materiais. Mas isso é um engano."

É verdade, remover o excesso é uma parte importante da receita — mas é apenas um ingrediente. Se nos preocupamos apenas com as coisas, estamos perdendo o ponto maior.

Minimalistas não focam em ter menos, menos, menos; ao invés, nós focamos em abrir espaço para mais: mais tempo, mais paixão, mais experiências, mais crescimento, mais contribuição, mais contentamento. Mais liberdade. Limpar a bagunça do caminho da vida nos ajuda a abrir esse espaço.”

Agora que esclarecemos o conceito, eis a missão proposta por eles: sair do piloto automático, deixar de fazer o que todos fazem só porque é esperado e viver uma vida intencional.

Aí, tudo se encaixou. Finalmente entendi o quanto todas as coisas estão conectadas. Nossas mentes estão frenéticas, aceleradas, afogadas no excesso de informações, invadidas por propaganda, sufocadas pela pressão de acompanhar tudo e não perder nada. Desenvolvemos um tique nervoso que checa o celular a todo momento em busca de uma notificação, uma mensagem, qualquer estímulo pra remediar o nosso tédio.

Só que não é tédio que estamos sentindo de verdade, é abstinência. E nós não precisaríamos de tanta distração se estivéssemos felizes.

Diante disso, comecei a imaginar quantos idiomas ou linguagens de programação eu poderia ter aprendido com todo o tempo que eu desperdicei vendo e postando conteúdo sem significado. Não estou dizendo que as redes sociais são algo intrinsecamente ruim — mas nós não estamos mais sabendo usufruir delas como antes. A inspiração deu lugar à pressão, a conexão deu lugar à comparação. Adicionamos mais “amigos” do que damos conta de manter, alimentando relações líquidas e amizades superficiais.

Eu cheguei a levar o Instagram pessoal como parte do meu trabalho, por causa da minha marca de moda. Muitas pessoas me incentivaram a postar mais (na melhor das intenções, como um elogio ao meu estilo) e eu acabei gostando da idéia. Não sei dizer quantas infinitas horas gastei planejando, produzindo, editando e postando conteúdo no meu perfil, na intenção de que minha imagem ajudasse a construir a marca. Hoje, mais de quatro anos depois, percebo que se ajudou foi pouco e não valeu a pena.

Não consegui escapar da opressora quantidade de vidas perfeitas, garotas ridiculamente lindas, viagens dos sonhos e delírios consumistas. Logo, o algoritmo chegou e o engajamento no perfil começou a cair drasticamente, fazendo com que aumentasse a culpa por não produzir conteúdo melhor, o questionamento do “o que estou fazendo errado?” e a pressão pra reverter o quadro. Me atrasei pra vários compromissos porque precisava tirar fotos do look pra ter material pra postar. Editei situações da minha vida pra que parecessem mais interessantes na internet. Tirei centenas de fotos pra escolher uma que chegasse mais perto da perfeição plástica, e ainda disfarcei as ínfimas olheiras no Facetune. Recebi um comentário de um gringo que não conhecia, me dizendo que eu era uma “cópia piorada” de uma garota que nunca ouvi falar.

Tudo o que me restou, depois de repetidamente me sentir pobre, feia, solitária e inapropriada, foi a percepção de que não extraí absolutamente nada de bom ou produtivo dessa experiência. E, pior de tudo, eu estava reproduzindo essa opressão pra outras garotas, que também se sentiam inadequadas ao ver minha imagem maquiada, meu corpo posado e minha vida editada.

Talvez um usuário casual não esteja tão suscetível a esses efeitos, mas quem investe tempo e espera algum resultado é mais sugado do que pode imaginar. Cada vez mais pessoas querem se tornar influenciadoras digitais só pelo status (que, aliás, é frágil e na maioria das vezes inútil). Por qual outro motivo tantas pessoas comuns sentiriam a necessidade de comprar seguidores? Conheço pessoas com mais de 50 mil seguidores verdadeiros que estão insatisfeitas e acham que têm poucos. Pessoas que me mostraram que centenas de milhares de seguidores não pagam as contas. E mesmo assim, é difícil não passar a acreditar que o seu valor depende daquele numerozinho.

Chegamos a esse ponto porque, ao primeiro sinal de sucesso, a sensação de popularidade acaba se tornando um instrumento de validação pessoal. A validação é falha, porque é efêmera e começa a ser substituída pela necessidade de se superar. Se uma foto surte centenas de likes e comentários, na próxima passamos a esperar o mesmo resultado e nos sentimos frustrados quando isso não acontece, ainda que de forma inconsciente.

A verdade é que isso nunca vai ser o suficiente pra ninguém. Até porque, como disse o minimalista Joshua Fields, “you can’t get enough of what you don’t really want” — você não pode ter o suficiente daquilo que você não quer de verdade.

É aí que vem, de novo, a conexão entre as coisas reais e as coisas imaginárias que congestionam a nossa mente e o nosso cotidiano. Acreditamos que queremos essas coisas porque fomos influenciados dessa forma, mas nessa busca involuntária falta intenção. Se a nossa intenção liderar cada um dos nossos atos, então não haverá mais a angústia do tempo escorrendo pelas nossas mãos e saindo do nosso controle cada vez que abrimos um feed.

Então, eu desativei o meu Instagram, com a sensação bizarra de que estava jogando algo muito caro no lixo — tanto que nem tive coragem de apagar permanentemente, por enquanto. A dificuldade de tomar essa atitude, a constante surpresa (e às vezes choque) das pessoas e a mera existência desse artigo são provas do quão profundamente imersos estamos nesse modo de vida.

Faz pouco mais de uma semana que desativei e, nos primeiros dias, tive alguns pensamentos de perda esquisitos, mas logo remediados pela razão. Quando via algo que parecia digno de ser postado, lembrava que não tinha mais onde (não uso muito o Facebook) — e logo na sequência, percebia o quão absolutamente irrelevante era aquele conteúdo que eu queria mostrar. Senti também a perda do infinito feed: e se eu ficar por fora de tudo? E daí percebi que eu prefiro ficar por fora de tudo; os reencontros com amigos ficam muito mais divertidos quando você não sabe de antemão tudo que vem acontecendo na vida deles.

Na mesma semana, eu também removi todos os aplicativos de redes sociais do meu celular e bloqueei as notificações do meu email e do WhatsApp (que só não deleto também por causa de trabalho). Agora checo meu email e o Facebook apenas uma vez por dia, no meu computador em casa, a menos que precise de alguma informação — nesse caso, acesso pelo computador do trabalho. É bizarro perceber a frequência com que ainda acontece o “tique” de sair abrindo aplicativos em busca de distrações, quando elas não são encontradas. Felizmente, o impulso está gradativamente menor, e logo o celular deixará de ser a primeira coisa que vejo de manhã e a última antes de dormir.

Não é fácil superar o medo da morte social. Mas o fato é que deixar de ver minhas fotos não mudou a vida de ninguém, e deixar de ver as fotos dos meus amigos e conhecidos também não mudou a minha. Muitas pessoas falam comigo como se eu já soubesse das novidades, porque foram postadas, mas a indignação logo passa e algumas até me confessam que também gostariam de passar menos tempo scrollando os feeds.

Se nada disso faz sentido pra você, e você ama cada minuto que passa nas suas redes, tudo bem! Novamente, não há nada de essencialmente maligno nas redes sociais — eu posso até voltar um dia a tentar reconstruir uma relação mais saudável com elas, desde que eu poste quando eu quiser e não por medo de cair o meu alcance. Desde que eu poste o que eu quiser, não um conteúdo obrigatoriamente consistente com meu perfil e coordenado com as cores do meu feed. Por enquanto, eu não quero.


https://medium.com/@larimaza/por-que-eu-desativei-o-meu-instagram-com-5-anos-764-posts-e-quase-4k-seguidores-72b87e64d22f

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